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Lúcio Vânio Moraes

Brasil e a Copa do Mundo: uma história de protagonismo que atravessa gerações

Confesso que, desde o início da Copa do Mundo, em 11 de junho, resisti à ideia de escrever sobre o futebol. Talvez porque, como historiador, prefira observar os acontecimentos antes de transformá-los em reflexão. Mas agora, no início de julho, faltando apenas dezoito dias para o encerramento da 23ª edição da Copa do Mundo da FIFA, tornou-se impossível conter o desejo de falar sobre um dos maiores símbolos da cultura brasileira.

 

Afinal, o futebol ultrapassa as quatro linhas do campo. Ele é um fenômeno social, histórico, político e cultural. É parte da identidade de um povo que aprendeu a transformar o jogo em arte, criatividade e paixão. O Brasil talvez seja o maior exemplo dessa relação. Somos o único país presente em todas as edições da Copa do Mundo e também o maior campeão da história do torneio. Mais do que estatísticas, esses feitos revelam uma profunda ligação entre o povo brasileiro e o futebol.

 

Costuma-se dizer que o brasileiro e a brasileira já nascem chutando uma bola. A frase pode soar como exagero, mas traduz uma verdade cultural. O futebol está nas ruas, nas praças, nos campinhos de terra, nas praias, nos bairros periféricos e nas comunidades. Está na infância, nas memórias familiares e nas conversas cotidianas. Antes mesmo de compreender as regras do jogo, muitas crianças já experimentam a alegria de um passe, de um drible ou de um gol improvisado.

 

Sob a perspectiva da História Cultural, o futebol representa muito mais do que uma competição esportiva. Ele é um patrimônio imaterial construído por diferentes gerações, capaz de expressar identidades, produzir memórias, criar pertencimentos e revelar as múltiplas formas pelas quais uma sociedade se reconhece. Cada Copa do Mundo é também um encontro de culturas, idiomas, tradições e histórias nacionais que dialogam por meio de um elemento comum: o esporte.

 

Em tempos marcados por guerras, conflitos armados, intolerâncias e profundas divisões políticas, a Copa do Mundo oferece, ainda que temporariamente, uma oportunidade singular de convivência entre os povos. Durante algumas semanas, milhões de pessoas voltam seus olhares para o mesmo espetáculo, compartilham emoções semelhantes e celebram aquilo que há de mais humano no esporte: a capacidade de reunir diferentes nações em torno da esperança, do respeito e da convivência pacífica.

 

Que esta Copa do Mundo seja lembrada não apenas pelos gols, pelos títulos ou pelas grandes atuações, mas também por sua capacidade de inspirar a paz. Porque, quando a bola rola, as fronteiras parecem diminuir, as diferenças encontram espaço para o diálogo e a humanidade recorda que competir não precisa significar odiar. O futebol continua sendo uma das mais belas linguagens culturais já produzidas pela humanidade, e o Brasil, com sua história, seu povo e sua paixão, permanece como um de seus maiores protagonistas.

 

O Brasil e a Copa do Mundo da FIFA compartilham uma relação única na história do esporte. Muito mais do que um participante, o país consolidou-se como protagonista do maior espetáculo do futebol mundial, construindo uma trajetória marcada por conquistas históricas, grandes ídolos e recordes que permanecem insuperáveis.

 

Em 2026, essa história ganha mais um capítulo. O Brasil é a única seleção a disputar todas as 23 edições da Copa do Mundo desde a criação do torneio, em 1930. A atual competição, realizada entre os dias 11 de junho e 19 de julho de 2026, também entrou para a história por ser a primeira a reunir 48 seleções e a ser sediada por três países simultaneamente: Estados Unidos, México e Canadá.

 

Ao longo dessa trajetória, o Brasil também entrou para a história como país anfitrião. A primeira Copa do Mundo realizada em território brasileiro ocorreu em 1950, durante o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra (PSD – Partido Social Democrático). Naquele ano, o país viveu um dos episódios mais marcantes da história do futebol, conhecido mundialmente como o "Maracanaço". Sessenta e quatro anos depois, em 2014, o Brasil voltou a sediar a competição sob a presidência de Dilma Vana Rousseff (PT – Partido dos Trabalhadores), recebendo novamente os olhares de bilhões de pessoas em todos os continentes.

 

Se como anfitrião o Brasil escreveu capítulos memoráveis, foi dentro das quatro linhas que consolidou definitivamente sua grandeza. A Seleção Brasileira permanece como a maior campeã da história da Copa do Mundo, sendo a única pentacampeã do torneio. Os títulos foram conquistados em 1958, na Suécia; 1962, no Chile; 1970, no México; 1994, nos Estados Unidos; e 2002, na Copa organizada conjuntamente por Coreia do Sul e Japão.

 

Cada conquista representou uma geração de atletas extraordinários e campanhas inesquecíveis. Em 1958, o Brasil marcou 16 gols e derrotou a Suécia por 5 a 2 na grande final. Em 1962, balançou as redes 14 vezes e venceu a Tchecoslováquia por 3 a 1. A seleção considerada por muitos especialistas como uma das melhores de todos os tempos conquistou o tricampeonato em 1970, anotando 19 gols e superando a Itália por 4 a 1 na decisão. O tetracampeonato veio em 1994, nos Estados Unidos, após empate sem gols diante da Itália e vitória por 3 a 2 na disputa de pênaltis. O pentacampeonato foi alcançado em 2002, quando o Brasil venceu a Alemanha por 2 a 0 na final, com dois gols de Ronaldo.

 

O domínio brasileiro no futebol mundial permanece refletido no ranking histórico de títulos da Copa do Mundo. O Brasil lidera com cinco conquistas, seguido por Alemanha e Itália, ambas com quatro títulos. A Argentina possui três conquistas, enquanto França e Uruguai somam dois títulos cada. Inglaterra e Espanha completam a lista das seleções campeãs, com um título cada.

 

A história da Copa do Mundo também acompanha a evolução dos meios de comunicação brasileiros. Em 1938, durante o Mundial realizado na França, ocorreu a primeira transmissão radiofônica de uma Copa do Mundo para o Brasil. O feito histórico foi conduzido pelo locutor pernambucano Leonardo Gagliano Neto, da Rádio Clube do Brasil. Utilizando as limitadas linhas de comunicação disponibilizadas pelo Exército Francês, ele conseguiu transmitir os jogos para ouvintes brasileiros por meio da Cadeia de Emissoras Byington. Antes disso, nas Copas de 1930 e 1934, os torcedores brasileiros precisavam aguardar as notícias publicadas nos jornais ou divulgadas pelas emissoras de rádio dias após as partidas.

 

Nenhum jogador representa melhor essa trajetória do que Pelé. Em 1958, aos 17 anos de idade, o jovem atacante conquistou uma vaga na Seleção Brasileira após marcar 58 gols no Campeonato Paulista. Inicialmente reserva, ganhou sua primeira oportunidade apenas na terceira partida da Copa, diante da União Soviética. A partir daquele momento, nunca mais deixou o time titular. Nas quartas de final, semifinal e decisão, marcou seis gols diante de País de Gales, França e Suécia, tornando-se o jogador mais jovem da história a conquistar uma Copa do Mundo. Aquele título também simbolizou a realização da promessa feita anos antes a seu pai, Dondinho: trazer o troféu mundial para o Brasil.

 

Mais do que números, recordes ou títulos, a trajetória brasileira na Copa do Mundo representa parte da identidade nacional. O futebol tornou-se um dos principais símbolos culturais do país, mobilizando milhões de pessoas a cada edição do torneio. Nenhuma outra seleção participou de todas as Copas do Mundo, nenhuma conquistou tantas estrelas e poucas despertam tamanha expectativa em cada competição.

 

Enquanto a 23ª edição da Copa do Mundo segue escrevendo novos capítulos da história do futebol, o Brasil mantém viva uma tradição iniciada em 1930. Independentemente dos resultados de cada geração, permanece como a única seleção presente em todos os Mundiais e como referência permanente do futebol internacional, sustentando um legado construído com talento, paixão, superação e cinco títulos que eternizaram a camisa amarela entre as maiores da história do esporte.

As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do(a) colunista e não refletem, necessariamente, a posição do Portal Folha Regional.

Lúcio Vânio Moraes - Historiador

Lúcio Vânio Moraes - Historiador

luciovaniomoraes@gmail.com

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