A Fé que Atravessa o Tempo: Os Quase 50 Anos de História e Resistência da Casa Espírita São Francisco de Assis em Maracajá (1981/2026)
Há quinze anos (entrevistas que realizei entre os meses de fevereiro à novembro de 2011), o cenário de nossas conversas era o interior da Casa Espírita São Francisco de Assis, em Maracajá. No dia 13 de outubro de 2026, o reencontro aconteceu em sua residência.
Ao dar início à entrevista, realizada entre 16h30 e 17h30, perguntei ao Sr. José se haveria algum problema em eu permanecer com o boné na cabeça durante a conversa, preocupado em saber se o adereço poderia intervir no diálogo, soar como desrespeito à sua pessoa ou afetar a harmonia com os espíritos. Com a simplicidade e a acolhida que lhe são características, Seu Zé logo me tranquilizou, dizendo que eu poderia permanecer com o boné sem problema algum, demonstrando o respeito e a leveza que pautaram todo o nosso encontro.
Encontrar o Senhor José Antônio Gonçalves, carinhosamente conhecido como Seu Zé Sangão, traz a nítida sensação de estar diante de um monumento vivo da história espiritual do município. Nascido em 10 de agosto de 1941 e natural de Maracajá, filho do Sr. Antônio José Luiz e de Dona Tereza Sergina Leandro (ambos já falecidos), ele completou 86 anos de vida carregados de uma bagagem que mistura dor, superação, preconceito e, acima de tudo, uma fé inabalável.
Hoje, embora a saúde apresente a fragilidade natural do tempo, marcada por dores nas pernas e na coluna, a chama da espiritualidade continua rigorosamente acesa em sua vida. Mais do que isso: Seu Zé faz questão de ressaltar que a sua saúde física e espiritual continua sendo zelosamente cuidada por seus protetores espirituais que o acompanham diariamente, com destaque para a presença constante dos espíritos dos freis que marcaram sua trajetória: Frei Eusébio, Frei João e Frei Antônio.
A trajetória de Seu Zé com o invisível começou cedo, aos oito anos de idade. Naquela época, sem compreender o que se passava, ele conversava com espíritos debaixo de árvores e no quarto. A incompreensão da família gerou uma rotina dolorosa de castigos físicos na infância. Para tentar "afastar" o que chamavam de coisa fantasmagórica, sua mãe o submeteu a toda a formação tradicional da Igreja Católica: catequese, primeira comunhão e crisma. Mas a missão de Seu Zé era outra.
Ao longo de sua jornada, desenvolveu e consolidou múltiplos dons mediúnicos: vê, ouve, incorpora, recebe espíritos e psicografa. A reviravolta em sua infância marcada por surras aconteceu quando sua mediunidade cruzou com figuras marcantes da Igreja Católica. Ele recorda que, quando criança em Tubarão-SC, avistou um frei da ordem dos capuchinhos sentado embaixo de um pé de cinamomo: o Frei Eusébio Augustinho, que o acompanhou até em casa e lhe entregou o livro sagrado com a bênção: "A partir de hoje vai e cura".
Anos mais tarde, quando as surras em casa se tornaram insustentáveis, foi o Frei Felipe, pároco de Forquilhinha, quem intercedeu junto aos pais dizendo: "Não bate mais no seu filho, pois o que ele tem é muito especial". Entre a condenação e a amizade: os padres e a história de Maracajá (Entrevista concedida em 13/10/2026).
A relação de Seu Zé com a comunidade e com a própria Igreja Católica ao longo das décadas foi de profundos contrastes. Enquanto alguns párocos de Maracajá condenavam abertamente a Casa Espírita, alimentando o preconceito local, houve também quem estendesse a mão da compreensão e da amizade. O maior exemplo disso foi o Frei Eusébio de Alfredo Chaves (nome religioso que marcou sua atuação na região), que foi pároco em Maracajá por impressionantes 17 anos e 7 meses. Ele tornou-se grande amigo de José Sangão, visitando-o frequentemente em sua residência e demonstrando profundo respeito pela sua missão de caridade e cura.
A Casa Espírita São Francisco de Assis completa quase 50 anos de existência oficial na cidade, mas Seu Zé faz questão de relatar as origens: a instituição já existia antes de 1981, fundada inicialmente por pioneiros vindos de Criciúma — como Raul Clemente, Elias da Silva e Rodeval José Alves. Posteriormente, a liderança foi passada para suas mãos, tornando-se o farol espiritual que ele conduziu por décadas.
O caminho, contudo, não foi pavimentado apenas de flores. Em quase meio século de portas abertas, a instituição e seus frequentadores enfrentaram barreiras severas de intolerância religiosa. Foram anos ouvindo ofensas, sendo chamados pejorativamente de "macumbeiros", "feiticeiros" e enfrentando constrangimentos de uma sociedade que ainda engatinhava na compreensão da diversidade de crenças.
Para Seu Zé, ver a Maracajá de hoje representa um avanço: a cidade está mais consciente, evoluindo na aceitação e no respeito às diferentes expressões religiosas.
Embora o corpo peça descanso e a direção da Casa Espírita tenha sido transmitida com sabedoria ao seu filho, o psicólogo Elder José Gonçalves, Seu Zé faz questão de manter o vínculo ativo. Ele continua frequentando as reuniões de quartas-feiras, onde se aprofunda nos estudos das obras básicas de Allan Kardec, o codificador do espiritismo.
Visitar Seu Zé Sangão é folhear as páginas mais profundas da alma de Maracajá. É perceber que, independentemente dos obstáculos físicos, das condenações do passado ou do preconceito que tentou calar sua voz, existem missões de vida protegidas pelo alto que simplesmente não se apagam, elas continuam curando, inspirando e fazendo história.



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