O Dia Internacional da Mulher não é apenas uma data para homenagens superficiais ou gestos simbólicos. Ao contrário, trata-se de um convite à reflexão profunda sobre como nossa sociedade trata as mulheres. Como observam autoras Beauvoir(1980) e Pedro (1994), a condição feminina sempre foi moldada por uma construção social que limita as possibilidades e liberdades das mulheres, reforçando papéis tradicionais e desigualdades estruturais. Para Beauvoir (1980), o "segundo sexo" das mulheres, constantemente subordinado ao masculino, é uma construção histórica que perpassa os mais variados espaços sociais, desde o privado até o público.
Pedro (1994) destaca que a opressão de gênero é sustentada por relações de poder assimétricas que transcendem o mercado de trabalho, atingindo áreas como a vida familiar, o cuidado e o reconhecimento social. De fato, Scott(2002), argumenta, em sua análise da história das mulheres, que a desigualdade de gênero não é apenas um problema de direito, mas uma questão de discursos e práticas sociais que, muitas vezes, naturalizam e legitimam essas desigualdades.
Num campo específico, o mercado de trabalho, as estatísticas são alarmantes. Em 2018, apenas 48% das mulheres com mais de 15 anos estavam empregadas, enquanto 75% dos homens dessa faixa etária participavam da força de trabalho. Além disso, pesquisas revelam que menos de 70% dos homens concordam com a ideia de que muitas mulheres preferem trabalhar a ficar em casa, evidenciando a resistência a modelos mais igualitários de distribuição de tarefas e responsabilidades entre os gêneros.
Outro dado importante está relacionado à maternidade, que se configura como um obstáculo profissional para muitas mulheres. Estudos mostram que cerca de 30% das mulheres abandonam seus empregos devido aos filhos, enquanto apenas 7% dos homens enfrentam essa decisão. Para Beauvoir (1980), o papel tradicional da mulher como mãe e dona de casa foi, por muito tempo, imposto pela sociedade patriarcal como sua única identidade válida, o que torna qualquer outra escolha (como o trabalho fora de casa) desafiadora e muitas vezes punida.
A discriminação salarial também é um reflexo claro dessa desigualdade de gênero: no Brasil, as mulheres recebem, em média, 20% a menos que os homens, mesmo quando ocupam cargos semelhantes. Essa diferença salarial é justificável, para muitos, pela suposta "incapacidade" das mulheres em se dedicarem ao trabalho de forma ininterrupta, uma vez que podem engravidar e, em muitos casos, precisam interromper sua carreira para cuidar da família.
Para Joan Scott (2002), o conceito de "cidadania" é paradoxal, uma vez que os direitos iguais são garantidos aos homens, mas são constantemente negados às mulheres por uma série de justificativas que reforçam a ideia de que elas são "menos capazes" ou "menos comprometidas" com o mercado de trabalho.
Além disso, as mulheres enfrentam desafios que vão além do trabalho. A violência de gênero, o abandono por parte de parceiros durante a gravidez e o assédio no ambiente de trabalho continuam sendo realidades enfrentadas por muitas mulheres. A ideia de que essas violências e desigualdades são "naturais" ou "inevitáveis" é, como apontado por Beauvoir (1980), uma construção que precisa ser superada por meio de uma mudança profunda nas relações sociais e políticas.
Portanto, o 8 de março deve ser entendido como mais do que um dia de celebração: é uma data para refletir sobre as desigualdades estruturais e para desafiar o silenciamento que muitas vezes permite a continuidade dessas violências. Como afirma Scott (2002), a luta por direitos iguais exige não apenas uma transformação nas estruturas legais, mas uma mudança nos próprios discursos sociais que sustentam a desigualdade. O 8 de março deve ser, portanto, um dia de ação e de questionamento constante, em busca de uma sociedade mais justa e igualitária, que respeite e valorize as mulheres não apenas como "segundo sexo", mas como cidadãs plenas e autônomas.
Referências
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Difusão Européia do Livro, [s.d.].
PEDRO, Joana Maria. Mulheres honestas e mulheres faladas: uma questão de classe. Editora da UFSC, 1994.
SCOTT, Joan. A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem. Tradução de ÉvioA. Funk. Florianópolis: Mulheres, 2002.
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