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Lúcio Vânio Moraes

Quando a fé virou conflito: o embate religioso que marcou Maracajá nos anos 1946/1947

Na década de 1946, Maracajá — então distrito de Araranguá — vivia um cenário religioso marcado por tensões e disputas. Naquele período, havia basicamente duas forças em atuação: a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Evangélica Assembleia de Deus. A chegada e a consolidação de uma igreja pentecostal dividiram fiéis e acirraram conflitos no campo religioso, em um momento em que o clero católico temia perder seguidores(Moraes, 2013, p. 110). 

Em 1947, esse embate ganhou contornos mais duros no então distrito de Morretes, hoje Maracajá. Registros históricos e depoimentos colhidos ao longo de pesquisas sobre a história da Assembleia de Deus no município indicam que o frei Tiago M. Coccolini esteve no centro dessas disputas, motivadas, em grande parte, pela perda do monopólio da chamada “cura das almas”.

Entre 1947 e 1963, relatos de fiéis evangélicos apontam que o religioso teria instigado práticas de rejeição a outras denominações. A Igreja Católica, predominante na região desde a primeira década do século XX, não aceitava dividir espaço com a nova expressão religiosa que crescia entre a população.

Um dos episódios mais graves desse conflito foi o incêndio do templo de madeira da Assembleia de Deus, construído na localidade de Garajuva por volta de 1946 ou 1947. Segundo os depoimentos, frei Tiago teria incentivado fiéis católicos a atearem fogo ao prédio. Nas missas, ele classificava a igreja evangélica como “seita”, chamava seus membros de hereges e defendia que a instituição deveria ser extinta.

Esse discurso, de acordo com as fontes orais, alimentou um ambiente de intolerância religiosa que extrapolou o campo simbólico. Fiéis assembleianospassaram a sofrer agressões: pedras eram atiradas contra as casas onde aconteciam os cultos, e crianças evangélicas eram hostilizadas nas escolas.

O aposentado Francisco Teodoro Machado (in memoriam), com 82 anos, fiel à tradição pentecostal, recordou os sermões da época. Segundo ele, o frei dizia nas missas em Morretes: “Vão lá, coloquem fogo na igreja dos evangelistas, que lá é uma seita e isso tem que se terminar, porque lá não tem salvação. A Igreja Católica é que tem a salvação. Coloquem fogo e depois venham à missa que, se for pecado, eu perdoo vocês” (Entrevista concedida a Lúcio Vânio Moraes em 11/7/2002).

Naquele período, Maracajá dependia administrativamente e religiosamente de Araranguá, o que fazia com que os padres da paróquia daquela cidade fossem responsáveis pelo atendimento espiritual dos católicos locais.

Como não foram encontradas fotografias que representassem esse episódio, esse contexto histórico-religioso foi posteriormente retratado em uma aquarela pintada em 2003 pela artista maracajaense Kelly Cristina Potrikus. A obra foi construída a partir de depoimentos e transformou em imagem um dos episódios mais tensos da história religiosa do município.

As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do(a) colunista e não refletem, necessariamente, a posição do Portal Folha Regional.

Lúcio Vânio Moraes - Historiador

Lúcio Vânio Moraes - Historiador

luciovaniomoraes@gmail.com

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